Arte & Psicose: A Obra de Arthur Bispo do Rosário

Por Maria Cristina Poli e Dalva Botelho Gandra Mesquita

Manto da Apresentação
Manto da Apresentação

Um labirinto de signos: a reconstrução de Bispo do Rosário

Arthur Bispo do Rosário produziu e colecionou um universo de miniaturas numa cela minúscula. Conjugou esforço, tempo e acordos políticos para assegurar tantas obras que, ao entrar no quarto-forte de Bispo em fins do ano 70, o olho embaralhava. Um labirinto de signos roubava a cena. (Hidalgo, 1996)

Pouco se sabe da história de Arthur Bispo do Rosário em época anterior à sua internação na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, onde morou por mais de 50 anos até a sua morte. Sabe-se que é originário de uma cidade no interior de Sergipe, Japaratuba, nascido em 1909 e descendente de escravos africanos, foi marinheiro na juventude, vindo a tornar-se empregado de uma tradicional família carioca. Também trabalhou na Light, companhia de energia elétrica do Rio de Janeiro, entre 1925 e 1938, sendo nesta época que foi acometido por um surto psicótico delirante, às vésperas da comemoração dos festejos do Natal. Em sua crise, acreditava ter visto Cristo descendo à terra com sua corte de anjos azuis e de ter recebido deste a missão de ser portador da mensagem perante Deus no dia do Juízo Final. Deveria recriar o universo, tornando-se Deus de seu mundo, para então apresentá-lo reconstruído ao Criador original. (Hidalgo, 1996)

Ao ser internado em hospital psiquiátrico, foi diagnosticado como esquizofrênico paranoide. Foi sempre considerado como um interno produtivo e colaborador. Inicialmente, trabalhou na cozinha e, em razão de seu “bom comportamento”, foi-lhe concedida autorização para sair da Colônia e regressar quando bem lhe conviesse. Porém, não há registro de que ele tenha saído alguma vez. Portador da missão de apresentar o mundo perante Deus, ele começou a produzir objetos com os materiais que encontrava em seu cotidiano. Sua arte baseava-se na criação de esculturas, faixas e bandeiras, quase sempre reinterpretações desses mesmos objetos, produzidos com materiais algumas vezes recolhidos do lixo.

Conforme afirmava, sua missão era a de recriar o universo, mostrando a sua percepção de mundo ao Pai. Para isso, deveria estar portando um uniforme, uma espécie de manto que ele também se dedicou a realizar. Esse manto, com o qual pediu para ser enterrado (esse pedido, no entanto, não foi realizado a fim de que se pudesse preservar a beleza artística do manto), aproxima-se em muito dos trajes da nobreza, com suas próprias dragonas e condecorações.

Bispo mostra desde o início de sua obra uma obrigação com o seu dever. Existe método em sua produção e na escolha dos objetos mumificados com os fios de seu uniforme de interno desbotado e esse método é seguido à risca ao longo dos 50 anos de produção de sua obra e de mais de mil peças produzidas. (Morais, 1998)

A sua obra mais conhecida é o Manto da Apresentação, que Bispo deveria vestir no dia do Juízo Final. Com ele, Bispo pretendia marcar a passagem de Deus na Terra. Os objetos recolhidos dos restos da sociedade de consumo foram reutilizados como forma de registrar o cotidiano dos indivíduos, preparados com preocupações estéticas, onde se percebem características dos conceitos das vanguardas artísticas e das produções elaboradas a partir de 1960. (Morais, 1998)

A partir da Psicanálise, podemos afirmar que Bispo utilizava os significantes como elemento pulsante em sua obra. Seu recurso à linguagem manipula signos e brinca com a construção de discursos, fragmentando a comunicação em códigos privados. Inserido em um contexto excludente, Bispo driblava a instituição o todo tempo, recusando-se a receber tratamentos médicos. Todavia, dela retirava subsídios para elaborar sua obra e, assim, mesmo sendo marginalizado e excluído, é consagrado como referência da Arte Contemporânea brasileira.

Entre 1985 e 1986, o médico que atendia os pacientes do Pavilhão Ulisses Viana, na Colônia Juliano Moreira, escreve sobre o Bispo:

“Vem mantendo a mesma conduta permanece em seu quarto, realizando diversos trabalhos manuais criados por ele. (…) calmo e orientado, vive num mundo particular, onde se julga iluminado e profetiza o fim do mundo brevemente. Está na terra para cumprir sua missão. Recusa qualquer medicamento.(Morais, 1998)

Delírio e Arte

A arte nos confronta com percursos na contramão. Assim, a potência de uma obra de arte está em nos permitir o desvio, a deriva, o encontro de um enigma que não indica o caminho, mas nos obriga ao movimento da imaginação. (Sousa & Tessler, 2007)

O potencial artístico de Bispo confirmou-se enfaticamente após um episódio ocorrido em 1967. De acordo com Frederico Morais, estando internado na Colônia e recluso na solitária após agredir outro interno (o que era denominado como função de “faxina” contra a rebeldia de outros pacientes), foi acometido por uma alucinação auditiva que dizia “Está na hora de você reconstruir o mundo”.

Quinet (2006), caracteriza esse momento da biografia de Bispo do Rosário como sendo:

“Desencadeante de sua criação como sintoma. A partir daí, Bispo nega-se a sair da reclusão a qual permaneceu por sete anos, decidido a acatar a ordem recebida, usando então a arte, para retratar ‘tudo o que existe no mundo no momento de sua passagem”.

É a partir de então que Bispo irá utilizar objetos e dejetos recolhidos no cotidiano de sua permanência na Colônia para fabricar miniaturas (utensílios domésticos, maquetes de esportes, etc.), produzir esculturas mumificadas (elaboradas com a linha azul que desfiava de seu uniforme interno), bordar painéis nos quais escrevia com agulha e linha nomes de pessoas, países, acontecimentos, acidentes geográficos.

A designação dessa forma de arte como “Arte Bruta” e a discussão acerca da chamada ‘arte dos loucos’, porta em si questões cruciais. A absorção cultural de formas originais e diversas de manifestações expressivas e a incorporação de modelos informais, distanciados de uma lógica linear e coerente, são aspectos em proliferação e que perpassam as mais diferentes modalidades artísticas contemporâneas (o cinema, a música, a literatura). E, se isso ocorre no nível da arte, é porque consiste em uma esfera de veiculação e retração daquilo que se vislumbra na totalidade do processo sociocultural.

A obra de Bispo do Rosário apresenta, em particular, além da originalidade de sua execução, a evocação imediata da figura de seu autor e dos alicerces biográficos de sua elaboração. Trata-se de alguém movido por delírios místicos, situado, em relação aos padrões normativos, como “à margem”, conforme diriam antigos teóricos sociais. Assim, é uma obra cuja intitulação categórica a situaria nos rótulos de estigma, exclusão, marginalidade social.

Arthur Bispo do Rosário, incitado pelas vozes, fazia arte com os objetos de seu dia a dia, criando para si próprio uma ressignificação do mundo. É preciso notar que, em nenhum momento, ele fez qualquer tipo de trabalho envolvendo santos ou imagens de cunho religioso normativo, ou que tenha produzido imagens em tela ou desenhos de qualquer tipo. A reinterpretação do mundo que realizava era-lhe absolutamente singular, pois ao fazê-lo, reinterpretava a si e ao mundo a sua volta estabilizando uma significação em seu delírio.

 

*Recorte de artigo científico. Para ler o artigo na íntegra, acesse.

 

Maria Cristina Poli

Doutora em Psicologia pela Universite de Paris, França. Docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro – RJ. Brasil.

E-mail: mcrispoli@terra.com.br

Dalva Botelho Gandra Mesquita

Graduação em Psicologia pela Universidade Veiga de Almeida, Rio de Janeiro – RJ. Brasil E-mail: dalvagandra@yahoo.com.br