Arte não é informação

Luiz Camillo Osorio – Março de 2017

O que nos faz gostar de arte? Como ela atua na nossa formação? Qual a diferença e qual a relação entre gostar e conhecer? As novas tecnologias facilitam ou prejudicam nossa lida com as obras de arte? Faz algum tempo, enquanto visitava um grande museu e sua coleção, reparei que  muitas pessoas passavam o mesmo tempo lendo as etiquetas e vendo as obras. Uns 15 segundos em cada direção, sendo otimista. Entre uma coisa e outra sobrava tempo para um comentário/suspiro do tipo: Manet! Monet! Cézanne! Saber de quem se tratava, ser um nome familiar, tornava o olhar curiosamente ainda mais rápido, como se o reconhecimento liberasse a atenção em relação ao que estava sendo visto – no caso pinturas.

A presença das etiquetas, dos textos de apresentação e de comentários nas paredes é parte da função informativa e pedagógica dos museus. Acrescentar a estas estratégias os aplicativos para celulares ou tablets pode ser tido como um passo adiante. Vale a pena saber a técnica, a data e, eventualmente, o título dos trabalhos. Há textos de curadores que muitas vezes nos ajudam a perceber as obras e o partido conceitual da exposição, que aumentam nossa capacidade de diálogo com as obras e seus contextos histórico, cultural e político.

Todavia, o fundamental é, acima de tudo, ver as obras, perder tempo vendo, reparar, olhar, falar sobre o que está sendo visto (ou imaginado), destacar as especificidades e o que interessa ou não nas obras. Deixar algum eventual desamparo atuar e saber lidar com ele no enfrentamento da arte. O importante é ir se dando conta de que olhar e falar do que está vendo é determinante na formação do gosto e do nosso conhecimento. Isso acontece naturalmente e é sempre comparativo e acumulativo. Se de fato houver interesse, quanto mais se vê, mais se gosta e quanto mais se gosta, mais se quer saber. Entretanto, ninguém gosta por nós e tampouco será sabendo sobre as obras, acumulando informação, que se vai poder gostar de arte. Arte é experiência.

Estas questões voltaram à baila recentemente lendo um artigo que saiu na versão brasileira do jornal espanhol El País, intitulada “O Shazam da Arte” – sobre um aplicativo que ajudará as pessoas a reconhecerem e terem mais informações sobre as obras nos museus, nos livros e até nas ruas. Segundo o jornalista, esta nova tecnologia, desenvolvida pela organização Smartify, “é um sistema de processamento de imagem em tempo real e em alta velocidade que reconhece a obra de arte (quadro, escultura ou objeto) para a qual o espectador está dirigindo a câmera de seu celular. Uma vez detectada a obra, o sistema oferece ao usuário informações relacionadas, incluindo críticas e comentários, história, vídeos e dados biográficos do autor”. Aparentemente um instrumento ótimo, que nos traz informações relevantes e nos ajuda a saber mais. Mas será só isso?

Todo remédio é também veneno. A obsessão em saber mais e equacionar saber com informação, acaba, a meu ver, impedindo uma outra relação que, no caso da arte, parece-me fundamental: entre saber e prazer. O prazer não vem com o que sabemos sobre as obras, mas justamente com o que escapa a este saber, é o que sobra além da informação e que nos intriga, nos provoca, nos faz pensar. Não é sabendo que o Cézanne pintou a montanha Santa Vitória ou que se trata de um quadro pós-impressionista, que teremos prazer em ver suas pinturas. Não são estas informações que vão nos convocar, nos puxar para dentro das pinceladas e nos obrigar a permanecer vendo e ter prazer neste permanecer. Importante afirmar que não estou dizendo, tampouco, que devemos ignorar estas informações. Apenas digo que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.  Elas se relacionam, mas não se determinam.

O perigo desta tecnologia, digo isso sem demonizar sua presença já instaurada em nossas vidas, é que ela acaba introduzindo um elemento entre nosso olho e o quadro, que tira ainda mais tempo do nosso prazer com o que não sabemos, com aquilo que não é da ordem do saber, com o que não é informação, mas expressão. É claro que os otimistas sempre retrucam que uma coisa não elimina a outra. Em tese tudo bem. Entretanto, nossa subjetividade já está danificada, viciada na informação, completamente desacostumada em não saber e ser convocada por isso. O não-saber que nos convoca é raro, mas é ele que caracteriza a experiência estética, a potência sem nome que nos faz sentir e pensar sem necessariamente já-saber e que vai constituindo em ato novas formas de saber. É justamente no intervalo entre percepção, reconhecimento e saber que entra em cena a imaginação, a faculdade que nos faz ir além do sabido e a arriscar novas possibilidades de saber.

Vivemos em uma época acelerada. Não temos tempo para re-parar em nada, pois precisamos estar em movimento e acumulando (e descartando) informações. Nada como a tecnologia para nos garantir mais material informativo, sem nos perguntar se teremos tempo para ler tudo isso e saber tanta coisa. Ou seja, a mediação tecnológica pode estar nos tornando detentores de muito conhecimento (e poder), mas simultaneamente, desconfio eu, está nos deixando ainda mais pobres de experiência, regredidos esteticamente e limitados na nossa capacidade de imaginar. Por isso, acho bacana, mas tenho um pé-atrás em relação a este aplicativo da Smartify.

SOBRE O AUTOR

Luiz Camillo Osorio é curador do Instituto PIPA e um dos idealizadores do Prêmio. É professor e atual diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Foi curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015. Acesse a Coluna do Camillo e leia textos exclusivos do curador do Instituto PIPA.

Fonte: Prêmio Pipa.